Mark Weisbrot
Folha de São Paulo
(Brasil), 27 de setembro, 2011
Em Inglês

Na semana passada, o ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, propôs que os países Brics (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) ofereçam ajuda à Europa, ou por meio do FMI (Fundo Monetário Internacional) ou comprando títulos de dívida europeus.

Compreendo o sentimento: as autoridades europeias criaram uma crise financeira que já está desacelerando a economia mundial e pode ter efeitos ainda piores. Isso prejudica os Brics, incluindo o Brasil.

Mas os Brics não vão necessariamente ajudar a Europa se derem dinheiro a ela. Se você tem uma pessoa na família que é viciada em heroína, dar heroína a ela não é a melhor solução. Seria melhor levá-la para um tratamento antidrogas.

Os responsáveis pela política econômica na Europa -a chamada "troika" formada por Comissão Europeia, BCE (Banco Central Europeu) e o FMI- têm um hábito prejudicial que precisa ser mudado. É sua dependência da austeridade. É claro que a dívida grega não é pagável e precisa ser reestruturada de maneira ordenada.

Mas as políticas de austeridade da troika fizeram a dívida grega subir de 11% do PIB, quando feito o primeiro acordo com o FMI (maio de 2010), para os 189% projetados para o próximo ano.

A crise mais recente foi desencadeada pela recusa do FMI em liberar uma parcela de 8 bilhões do empréstimo enquanto o governo grego não tivesse implementado mais endurecimento orçamentário doloroso e contraproducente. Isso levantou a possibilidade de um calote caótico e unilateral da Grécia, se essas medidas não forem aprovadas pelo Parlamento grego.

As autoridades europeias têm a capacidade de convocar todos os recursos financeiros de que podem precisar para resolver a crise atual. Elas podem reestruturar a dívida grega e empurrar para baixo os juros sobre os papéis de países com problemas, como Itália, Espanha, Portugal e Irlanda. Logo, não é primordialmente uma crise de dívida que a Europa enfrenta, mas uma crise de fracasso de uma política.

Eles não precisam de dinheiro do exterior. Podem criar o dinheiro necessário -por exemplo, para recapitalizar seu sistema bancário. O Federal Reserve dos EUA já criou mais de US$ 2 trilhões desde o começo da recessão americana, sem nenhum efeito sobre a inflação. O BCE pode fazer igual: o FMI prevê que a inflação na zona do euro caia de 2,5% neste ano para 1,5% em 2012.

Se os Brics quiserem realmente ajudar a Europa, podem oferecer empréstimos com juros baixos ou zero, em divisas, para os países com problemas que queiram seguir uma política fiscal expansionista. Isso lhes permitiria escapar das condições prejudiciais que as autoridades europeias lhes estão impondo e superar seus problemas de dívida, graças ao crescimento.

É claro que a Grécia teria que dar o calote sobre uma parte grande de sua dívida para poder aproveitar essa alternativa; mas os outros países não precisariam fazer isso. Se tivessem uma fonte alternativa de empréstimos, as autoridades europeias teriam que repensar sua estratégia fracassada. Desse modo, os Brics poderiam ajudar a salvar a Europa da incompetência de seus responsáveis políticos.


Tradução de Clara Allain. Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy, passa a escrever quinzenalmente às quartas-feiras.


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