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Brasil sem política industrial

Mark Weisbrot
Folha de São Paulo
(Brasil), 1 de fevereiro, 2012
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Na semana passada, o Brasil atingiu novo recorde de baixo desemprego: 4,7%. Mesmo que ajustemos os dados sazonalmente, ainda será um recorde, com só 5,5% da força de trabalho desempregada. Trata-se de uma conquista positiva e reflete em parte o fato de a economia brasileira vir tendo desempenho muito melhor sob Lula e Dilma que nos anos FHC. O PIB per capita cresceu só cerca de 3,2% durante os oito anos da administração FHC, mas subiu mais ou menos 28% desde que o PT chegou ao governo, em 2003.

Existem, contudo, outras tendências que devem dar margem a preocupação. Dos 5,1 milhões de empregos criados desde 2002, 493 mil (9,7%) foram no setor industrial. Mais de 1,6 milhão (32%) foram criados no setor financeiro e de serviços a empresas. Essa tendência vem se acelerando rapidamente nos últimos anos, de modo que nos últimos dois anos foram geradas apenas 35 mil vagas no setor industrial, ante 497 mil nos serviços financeiros e empresariais. No trimestre mais recente, 90 por cento dos novos empregos foram criados nos serviços empresariais / setor financeiro - um setor que responde por 16,9 por cento do emprego.

Não é uma boa tendência para o futuro do Brasil. Alguma ampliação do setor financeiro contribui para a economia -a expansão do crédito, por exemplo-, mas também há muito desperdício. Parte disso, como a compra e venda de derivativos, que contribui para a supervalorização da moeda, chega a ser prejudicial.

A sobrevalorização do real é uma das principais políticas que vêm prejudicando o setor industrial do Brasil, por baratear artificialmente as importações e encarecer os produtos que o Brasil exporta. O Banco Central brasileiro vem contribuindo consideravelmente para esse problema ao manter os juros em níveis exageradamente altos.

A imprensa financeira e o establishment de política externa dos EUA estão entusiasmados com a política econômica do Brasil, que gera oportunidades para investidores estrangeiros ganharem dinheiro.

Vale a pena comparar o progresso econômico recente do Brasil com o da Argentina, bastante criticada pela imprensa financeira. Desde sua moratória, em 2002, a Argentina quase não teve acesso a empréstimos internacionais e recebe muito pouco investimento estrangeiro direto se comparada ao Brasil. A renda do Brasil estava próxima da argentina em 2002, no pior momento da recessão no país vizinho.

Desde então, porém, a Argentina cresce tão mais rapidamente que o Brasil que hoje o argentino médio tem renda real cerca de 40% superior à do brasileiro médio. E, como a renda é distribuída de modo mais desigual no Brasil que na Argentina, a disparidade entre os dois países é muito maior para os pobres e para a maioria dos brasileiros.

É claro que o Brasil tem se saído muito melhor que nas décadas de 80 ou 90, mas ainda está muito distante de realizar seu potencial. Para isso, precisará de uma estratégia industrial e de desenvolvimento que dirija a economia para áreas de produção com valor adicionado maior.

Muitos equacionam crescimento rápido com mais destruição ambiental. Na realidade, o Brasil poderia crescer muito mais rapidamente e com menos destruição ambiental se contasse com uma política industrial, em vez de sua crescente dependência de produtos primários que, por exemplo, contribuem muito para o desmatamento.


Tradução de Clara Allain. Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da Just Foreign Policy, passa a escrever quinzenalmente às quartas-feiras.

 

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