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Eleições Presidenciais no Brasil: Oposição tenta “Estratégia Republicana” na Política Externa

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Mark Weisbrot
The Guardian Unlimited, 17 de junho, 2010
Em inglês

Há quatro anos, quando o governo de Evo Morales renacionalizou a indústria de hidrocarbonetos, a mídia brasileira estava buscando uma briga. A final de contas, a Petrobras tinha interesses estratégicos por lá. Mas o presidente Lula estava calmo. “Eu não briguei nem com o George W. Bush”, disse à imprensa. “Por que deveríamos brigar com Evo?”

Em quatro meses, o Brasil vai eleger um novo presidente. Até agora, o candidato José Serra do PSDB tem mostrado mais interesse neste tipo de briga. Mês passado, ele declarou: "A cocaína vem de 80% a 90% da Bolívia . . .Você acha que a Bolívia iria exportar 90% da cocaína consumida no Brasil sem que o governo de lá fosse cúmplice? Impossível. O governo boliviano é cúmplice disso.”

Ele também atacou os esforços de mediação brasileira e as relações com o Irã, e indicou que iria enfraquecer o Mercosul. Serra está concorrendo com a candidata do PT Dilma Rousseff, ex-ministra de Minas e Energia e Chefe da Casa Civil do presidente Lula, que defende veementemente a política externa do governo.

A direita brasileira também tem sido hostil com a Venezuela, com senadores atrasando a entrada do país no Mercosul por mais de três anos e dando voz à propaganda norte-americana contra o presidente Hugo Chávez. Assim como nos Estados Unidos, a grande mídia tem apresentado uma caricatura da Venezuela e do governo Chávez, com alguma influência sobre a opinião pública. Até agora, Serra evitou atacar a Venezuela. Talvez porque saiba que Chávez poderia reagir e pressionar para que assuntos de política externa ganhem maior destaque na campanha do que Serra deseja. Nas eleições dos últimos anos no Peru, México, El Salvador, Nicarágua, e outros países, os candidatos de direita - bem sucedidos nas duas primeiras disputas - literalmente fizeram campanha como se Chávez fosse o opositor deles. É pouco provável que o PSDB queira que este seja o centro de sua campanha; não conseguiria votos de muitos brasileiros.

De fato, o PSDB está sobre a corda bamba. Houve uma tremenda transformação histórica na América Latina, especialmente na América do Sul, na última década. A região tornou-se muito mais independente dos EUA, e claramente se beneficiou desta enorme mudança. Apesar de haver uma poderosa parte das elites política e midiática brasileiras, que está desconfortável com essas mudanças e gostaria de retornar à aconchegante relação anterior com Washington, isso seria arriscado. O PSDB não gostaria de ser visto como o partido que ficou do lado errado dessa histórica transição.

Até mesmo em relação à Bolívia, a maioria dos eleitores que o PSDB quer atingir  provavelmente entenderia que não faz sentido atacar a Bolívia pelo comércio ilegal de drogas no Brasil. O governo de Evo Morales tem lutado contra o tráfico de drogas com mais eficiência e menos corrupção que seus antecessores; há uma clara distinção para o governo Morales entre coca, um suave e legal estimulante que há seculos faz parte da cultura boliviana, e cocaína. Tente dizer aos americanos que parem de tomar café. Se o Brasil quiser reduzir o tráfico de drogas, vai encontrar na Bolívia um parceiro. Se a  fracassada “guerra às drogas” de Washington, que já dura décadas, conseguiu provar alguma coisa, fica claro que o tráfico de drogas é em larga escala um problema do lado da demanda, e que a erradicação de uma fonte de fornecimento leva simplesmente a uma mudança geográfica da produção.   

Não está claro se os ataques de Serra aos esforços diplomáticos de Lula no Oriente Médio vão ser bem sucedidos daqui pra frente. O acordo nuclear que Brasil e Turquia negociaram com o Irã no mês passado foi um grande divisor de águas na diplomacia internacional. Foi também exatamente o que Obama havia pedido que Lula tentasse organizar três semanas antes. O governo brasileiro teve que vazar uma carta enviada por Obama para provar o caso, depois que a Secretária de Estado Americano Hillary Clinton reagiu com hostilidade ao acordo. Ainda assim, o resultado final é que o Brasil ajudou a preservar um espaço para um acordo num momento em que a administração Obama está cedendo a pressões de parlamentares de direita no congresso - que querem que ele abandone essa estratégia, aumentando assim as chances de um confronto militar. Ainda que alguns colunistas tenham reclamado, a administração Obama teve que aceitar os esforços do Brasil sem nenhuma pista de que a relação bilateral entre os dois países seria afetada negativamente.

José Serra não é um político de direita por natureza; como ministro da saúde ele enfrentou poderosas empresas farmacêuticas estrangeiras que tinham o apoio dos EUA para assegurar preços mais baixos para medicamentos genéricos essenciais. 

A resposta é que provavelmente a economia melhorou muito mais durante os oito anos de governo Lula do que em relação aos oito anos anteriores de PSDB, incluindo o crescimento. Com significativos aumentos reais no salário-mínimo, uma expansão do programa bolsa família e crédito imobiliário para compradores de menor poder aquisitivo, não será muito fácil fazer campanha contra Dilma e o Partido dos Trabalhadores em termos econômicos.

Os republicanos nos EUA há muito tentam alcançar os eleitores indecisos por meio de campanhas desvinculadas dos temas econômicos, incluindo a falsa tese de que o partido deles é mais “duro” em assuntos de política externa. Foi a melhor estratégia que conseguiram encontrar nas últimas quatro décadas. É claro que quando a recessão finalmente forçou estes eleitores a prestar mais atenção em assuntos econômicos em 2008, eles perderam tudo.

Mas o Brasil não são os Estados Unidos. Lula e seu ministro das Relações Exteriores Celso Amorim estão lutando para evitar uma outra horrível e desnecessária guerra no Oriente Médio; e pelo benefício da solidariedade, independência, e integração regional na América do Sul. O mais provável é que esta mensagem positiva ganhe mais votos no Brasil.