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Irã: Lula não deve ceder à pressão dos EUA

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Mark Weisbrot
Folha de São Paulo, 24 de março de 2010
Em inglês

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem sendo criticado recentemente por adversários por negar-se a participar da campanha dos Estados Unidos pela adoção de sanções intensificadas sobre o Irã.

Recentemente Washington passou de uma breve fase de "engajamento" com o Irã em torno do programa nuclear iraniano para a atitude mais agressiva de ameaças e confrontos, que foi a estratégia seguida da administração Bush. Lula vem argumentando que isso é contraproducente.

O artigo "Visita indesejável" do governador de São Paulo, José Serra, resume os argumentos apresentados contra Lula. Serra ataca Lula por ter recebido Ahmadinejad, dizendo que a eleição do presidente iraniano foi "notoriamente fraudulenta", que seu governo é repressivo e que ele nega a existência do Holocausto.

Na realidade, a primeira acusação é extremamente implausível, como sabe qualquer pessoa que tenha examinado as evidências. A margem de vitória foi de 11 milhões de votos e centenas de milhares de pessoas testemunharam a contagem. Os resultados foram condizentes com as pesquisas de intenção de voto e com as pesquisas de boca de urna.

Não há dúvida de que o governo iraniano é repressivo, embora se possa argumentar que não é mais repressivo do que o de certos aliados dos EUA.

É o caso do Egito, que ultimamente vem prendendo centenas de ativistas e candidatos oposicionistas para afastá-los da próxima eleição.

Quanto à negação do Holocausto por parte de Ahmadinejad, vale lembrar que Lula a condenou fortemente.

Deveria Lula recusar um encontro com Hillary Clinton, que apoiou a invasão e a ocupação do Iraque? Essa guerra completamente desnecessária já matou mais de 1 milhão de pessoas, segundo as estimativas mais confiáveis. Isso é crime, assim como o são as mortes contínuas de civis cometidas por forças dos EUA no Afeganistão.

Lula se reúne com todos os lados na disputa porque está tentando exercer um papel de mediador para impedir outra guerra desnecessária. É isso o que fazem os mediadores. A equipe de Obama, assim como a do presidente George W. Bush, tem dificuldade em compreender esse conceito. Ela adota uma abordagem "Poderoso Chefão" para as relações internacionais: "Vamos lhes fazer uma oferta que vocês não poderão recusar".

A abordagem da equipe de Lula é oposta, algo que pode dever-se a sua experiência sindical: ele procura o diálogo, as negociações e as concessões, visando solucionar conflitos.

Serra também ataca Lula por ter se recusado a reconhecer o governo de Honduras, eleito sob uma ditadura, ao mesmo tempo em que se reunia com Ahmadinejad.

As duas situações, entretanto, não são comparáveis: a derrubada militar do governo hondurenho eleito é uma ameaça à democracia em toda a América Latina, enquanto o Irã não o é. O Brasil não pode influenciar a política interna do Irã. Já a América Latina tem acordos regionais e uma coordenação de políticas capazes de subsidiar a democracia e prevenir a ocorrência de mais golpes militares no hemisfério.

O único tema comum aqui é a recusa de Lula em render-se às prioridades de Washington. Os especialistas não poderiam ter previsto que o Partido dos Trabalhadores, conduzindo um ex-operário de fábrica à Presidência, pudesse ter feito o Brasil avançar como líder no palco diplomático mundial mais que qualquer governo anterior conseguiu.

Mas Lula se tornou um dos líderes mais respeitados do mundo e, por essa razão, possui potencial singular de ajudar a resolver alguns dos conflitos políticos mais sérios do planeta.

Era previsível que Lula fosse criticado por opor resistência aos EUA. Assim que Washington lança uma campanha contra um governo satanizado, a imensa maioria da mídia internacional adere a ela, e qualquer um que se opuser no caminho pagará um preço. Isso se aplica independentemente de o governo em questão ser uma teocracia repressiva, como o Irã, ou uma democracia, como Venezuela ou Honduras antes do golpe de junho.

Em relação a todos esses casos, Lula vem assumindo uma atitude pautada por princípios e que atende aos interesses mais verdadeiros não apenas do Brasil, mas da humanidade.

Nós, cidadãos dos Estados Unidos, apreciamos particularmente seus esforços para nos manter fora de mais uma guerra insensata, já que nossa própria sociedade civil e nossas instituições democráticas tão frequentemente não têm sido fortes o suficiente para fazê-lo.

O mundo precisa desse tipo de liderança -precisa seriamente dela.


Mark Weisbrot, doutor em economia pela Universidade de Michigan, é codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington. Tradução de Clara Allain.