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Mais espaço para debate Qua Venezuela

Mark Weisbrot
The Guardian Unlimited, 9 de janeiro de 2013
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Imagine que você foi ver o filme de Steven Spielberg, “Lincoln”, e tudo o que aparece nele é  o ponto-de-vista dos senhores de escravos brancos do Sul dos Estados Unidos, durante a Guerra Civil. Isso é análogo ao que você está recebendo em quase toda a cobertura da grande mídia sobre a Venezuela.

Na semana passada, o New York Times fez algo que nunca fez antes —  em seu “espaço para o debate” ofereceu pontos-de-vista diferentes sobre a Venezuela. Nos 14 anos desde que Hugo Chávez foi eleito presidente da Venezuela, o Times tem oferecido muitos artigos de opinião e editoriais contra a Venezuela — incluindo seu próprio editorial de apoio ao golpe militar de 2002 (do qual mais tarde recuou, sem pedir desculpas).

Mas o Times nunca se deu ao trabalho de publicar mesmo um único artigo de opinião (ou reportagem) que contraste com a sua linha editorial sobre este país rico em petróleo. Isto contrasta com quase todos os jornais de tamanho médio ou grande, nos Estados Unidos — desde o LA Times, Boston Globe, ou Miami Herald, até mesmo o neoconservador Washington Post, além de dezenas de jornais de outras cidades  que publicaram ao menos algum artigo oferecendo o outro lado da história.

Vale a pena revisitar o debate que apareceu na edição do Times online, porque lança luz sobre alguns dos problemas sobre  o que lemos e ouvimos sobre a Venezuela.

Moisés Naím afirma que a Venezuela, cuja economia cresceu cerca de 5,5 por cento em 2012,  está a caminho de “uma crise econômica de proporções históricas.” (Bem, pelo menos ele disse que “está a caminho” de uma crise. Anita Issacs, cientista política que participou do debate , curiosamente se refere ao  ”colapso da economia da Venezuela” — como em “o colapso da economia dos Estados Unidos” em 2004).

“A crise inclui um déficit fiscal que se aproxima de 20% da economia (no penhasco que causou pânico nos Estados Unidos é de 7%), um mercado negro, onde um dólar dos EUA custa quatro vezes mais que o governo determinou na taxa de câmbio, uma das taxas de inflação mais elevadas do mundo, um número inchado de empregados no setor público, dívida 10 vezes maior do que era em 2003, um sistema bancário frágil e queda livre na indústria estatal de petróleo, principal fonte de receita do país.”

Bem, isso parece assustador! No entanto, o Fundo Monetário Internacional (em setembro) estimou o déficit fiscal da Venezuela em 7,4 por cento do PIB.

A “dívida 10 vezes maior do que era em 2003?” — não há fonte para isso, mas é claramente um número sem sentido. Porque as economias crescem e há também a inflação, débito é normalmente medido contra um denominador, por exemplo, a renda do país. Segundo o FMI (novamente de setembro), a dívida da Venezuela para 2012 é projetada para ser 51,3 por cento do PIB, o que não é um número particularmente ameaçador (a média da União Europeia é de 82,5 por cento do PIB).

[Uma medida mais adequada da carga da dívida externa -- que é muito mais importante do que a dívida pública interna -- para um país como a Venezuela, onde cerca de 95 por cento das receitas de exportação são do petróleo, e que tem receita em dólares, seria pagamentos de juros do governo como porcentagem de receitas de exportação do setor público. Na Venezuela este índice também não é muito alto -- atingindo o pico, em 2012, de cerca de 3 por cento das receitas de exportação. Veja aqui para mais detalhes].

Não sei o que se entende por “a queda livre da indústria de petróleo controlada pelo Estado”.

A Venezuela adere às cotas da Opep (Organização dos Paises Exportadores de Petróleo) e não está tentando aumentar a produção para além da sua cota. Naím também adverte que “como resultado do boom de produção de petróleo nos Estados Unidos, as importações americanas de petróleo venezuelano recentemente atingiram baixa de 30 anos.”

E daí? O óleo é vendido em um mercado mundial, não há nenhuma razão particular para mandá-lo para os Estados Unidos. Na verdade, o governo venezuelano está muito feliz de diversificar suas exportações para os países mais amigáveis a ele que os Estados Unidos tem sido.

A inflação na Venezuela é claramente alta, embora muito menor que na era pré-Chávez. Mas a estimativa mais recente é 19,9 por cento para 2012, que é abaixo de 27,2 por cento em 2010 — apesar de uma rápida aceleração do crescimento depois da recessão, que terminou no segundo trimestre desse ano. O governo vai querer derrubá-la ainda mais, mas esse nível de inflação não é por si só uma ameaça séria para a economia de um país em desenvolvimento.

Ah, e quanto ao “número inchado de empregos no setor público da Venezuela”, é de cerca de 18,4 por cento da força de trabalho. França, Finlândia, Dinamarca, Suécia, Noruega todos têm percentagens de emprego do setor público na casa dos 20%, com a França em 22 por cento e a Noruega em 29 por cento.

OK, isso é provavelmente mais detalhe do que você queria, mas lembre-se que a visão catastrófica da economia venezuelana tem sido promovida por opositores de Chávez, inclusive pela maioria da mídia internacional e da Venezuela, há 14 anos.

Como as pragas que Deus trouxe para o Egito do Antigo Testamento, o colapso econômico vai livrar os venezuelanos do ditador do mal que eles de alguma forma continuam reelegendo por larga margem. O desastre sempre esteve ali na esquina,  mas nunca aconteceu. Houve apenas duas recessões durante os últimos 14 anos. Uma delas foi diretamente causada pela própria oposição, na greve do petróleo de 2002-2003, que foi organizada para derrubar o governo. A outra foi durante a recessão mundial de 2009, quando a maioria dos países do hemisfério entrou em recessão.

Francisco Toro é um blogueiro da oposição, que, mesmo mais que Naím, passou a maior parte da última década prevendo desgraça e tristeza para a economia venezuelana. Para ele, o fim do chavismo virá quando o governo for obrigado a implementar a austeridade como em “o país fica sem dinheiro e sem pessoas dispostas a emprestar mais.” De acordo com Toro, “Chávez gastou toda a enorme colheita da Venezuela com as exportações de petróleo, e a dívida do país quintuplicou em 14 anos” (outro número que não faz sentido).

Para usar o melhor argumento oferecido por eles, o que tanto Naím, Toro e outros pessimistas estão basicamente dizendo é que a Venezuela terá de enfrentar uma crise de balanço de pagamentos. Uma vez que eles não estão prevendo hiperinflação, uma crise no balanço de pagamentos é realmente a única coisa em suas fantasias que poderia desmoronar a economia da Venezuela, como aconteceu na crise asiática de 1997-98, que desabou uma série de economias na região.

Mas a Venezuela tem tido superávits em conta corrente e comerciais durante a última década, desde que se recuperou da greve do petróleo e a estabilidade política foi retomada. A exceção foi durante seis meses, quando os preços do petróleo desabaram no fim de 2008.

As “dores de cabeça”  às quais Naím se refere em termos de escassez de divisas, que aumentaram desde a eleição de outubro, dificilmente são um sinal de colapso iminente. Ao contrário, são o resultado de o governo tentar limitar a fuga de capitais, negando dólares na taxa oficial para as empresas que o governo acha que não estão usando-os para fins legítimos.

Se isso resultar em escassez de muitos produtos, o governo sempre pode adotar outra estratégia. O atual regime cambial é difícil de gerir, é propenso a ineficiências e corrupção, e minha opinião pessoal é que a Venezuela estaria melhor sob um regime de taxa de câmbio diferente — por exemplo, uma taxa de câmbio de flutuação controlada, mantida a um nível inferior real.

Mas isso é muito diferente da ideia, ou do sonho recorrente dos pessimistas da oposição, de que este problema levará inevitavelmente a uma crise do balanço de pagamentos, o que causaria o colapso da economia.

É claro que as previsões de catástrofe ajudam a promover a fuga de capitais pelos venezuelanos convencidos de que devem guardar as suas poupanças em outro lugar.

Mas aqui está o fato: mesmo que o sonho de uma crise do balanço de pagamentos se torne realidade, o governo Chávez tem amigos. E alguns desses amigos têm um monte de dólares. A China, que está sentada sobre mais de 3 trilhões de dólares em reservas, considera a Venezuela um aliado estratégico e emprestou ao governo Chávez 36 bilhões de dólares desde 2007.

A maior parte foi paga de volta, e cerca de U$ 20 bilhões foram emprestados a taxas de juros extremamente baixas (1 a 3 por cento). Brasil e Rússia também estão entre os países que consideram a Venezuela um parceiro muito importante na região. Eles também controlam centenas de bilhões de dólares em reservas.

Estes países não gostariam de ver o colapso de seu parceiro e aliado, o governo da Venezuela, por causa de  alguns bilhões de dólares de divisas para pagar as importações por um tempo. Por exemplo, se os preços do petróleo cairem temporariamente, como aconteceu em 2008.

Há uma série de razões para isso, mas uma delas é que um governo de direita provavelmente seria aliado de Washington.

O apoio do governo de Chávez a um “mundo multipolar”, descrito como “anti-americano”,  é bastante atraente para a maioria dos outros governos do mundo. A Venezuela tem as maiores reservas mundiais de petróleo, e tirando Washington e os governos da Europa (que não são de muita utilidade para qualquer pessoa nos dias de hoje), a maioria dos governos não acha que é uma grande ideia ter um país que é conhecido em todo o mundo como um poder imperial, com o maior exército do mundo, também controlando as reservas mundiais de petróleo.

O outro lado da moeda é que as reservas de petróleo da Venezuela também são o principal motivo pelo qual Washington tem sido tão hostil ao país, apoiando o golpe militar de 2002 e intervindo tanto quanto o possível para tentar desacreditar, debilitar e deslegitimar o governo.

Embora estes esforços tenham tido enorme sucesso em influenciar a mídia e, portanto, a opinião pública, na maior parte deste hemisfério, eles não fazem tanto sucesso com os governos, especialmente nas Américas, mas também na maior parte do mundo.

E essa é a ironia: a batalha sem fim de Washington contra a Venezuela tem, de certa forma, tornado o governo Chávez e seu partido político mais fortes, ajudando a infundir na disputa de esquerda versus direita uma dimensão anti-imperialista que coloca a maior parte dos governos do mundo ao lado de Chávez.

É claro que a mais importante fonte do contínuo sucesso eleitoral de Chávez tem sido as melhorias nos padrões de vida que a maioria dos venezuelanos experimentou na última década: a redução da pobreza pela metade, da pobreza extrema em mais de 70 por cento, corte do desemprego pela metade, uma triplicação de pessoas elegíveis para aposentadorias públicas e maior acesso aos cuidados de saúde e educação.

No debate do Times, o historiador Miguel Tinker-Salas fez a melhor contribuição — como sempre faz — ao acentuar a centralidade de quem controla as reservas de petróleo da Venezuela. “Controle do governo implica o controle da indústria do petróleo e da capacidade de ditar se ela beneficia toda a sociedade ou apenas setores privilegiados, como o fez no passado.”

É verdade e continuará sendo.


Mark Weisbrot é co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política de Washington e presidente da Just Foreign Policy.

 

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